sábado, 5 de dezembro de 2009

Conversa

-Você deveria estar perfeitamente feliz agora.
Silêncio sufocante.
-Você tem tudo. Muito mais que muitos. Sua vida é mais fácil do que a de quase todos, até a de seus pais. Por mais que eles ainda tenham problemas e estes lhe atingem, a sua vida continua perfeita.
Ela não conseguiu esconder o sangue que acumulou nas bochechas. Por mais que olhasse seus pés ambos ali sabiam a resposta para tais afirmações.
-E seus amigos? Muitos também tem uma vida fácil, mas não tão fácil quando comparada a sua.
Ela não conseguia encarar aqueles olhos.
-E então? Você está feliz perfeitamente feliz?
Ela ainda olhava seus pés
-Não.
Sua voz estava tão tremula quanto suas pernas e teria sido inaudível se não fosse pelo silêncio absurdo da sala.
Ambos estavam decepcionados.
E então, lentamente, carregando todo o peso do sentimento de culpa, ela conseguiu encarar aquele par de olhos. E a imagem do espelho estava tão envergonhada quanto ela.

Encarar a vida é fácil, quando comparado a encararmos a nós mesmos.

sábado, 14 de novembro de 2009

Está faltando linha

Para encurtar essa distância.

Está faltando vontade,
Para matar essa saudade.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Caminhando

Passei boa parte de minha vida caminhando. Mesmo antes de aprender a caminhar e ainda hoje sinto que não o sei.
E caminhando vi as mais belas paisagens, o sol em suas variadas formas e muitas vezes a ausência dele. Beijei o vento e já quis socá-lo. Morri de calor e reclamei do frio.
Pisei no macio das gramas e inúmeras vezes cortei meus pés em cascalhos. Hoje eles estão mais fortes. Nem sempre encontrei trilhas feitas e criá-las é aventuroso.
Muitos já passaram pelos mesmos caminhos, deixando algumas marcas para não se perderem.
Já encontrei outros que quiseram me acompanhar, já chorei quando tomaram outros rumos.
Muros altíssimos me fazem parar, mas não espero que os derrubem.
Vi as mais terríveis criaturas e por várias vezes ignorei suas belezas. Hoje observo mais atentamente e desejo pedir desculpas.
As vezes caio, tropeço, me machuco. Mas machucados cicatrizam e sempre haverá mais para ser visto.
Alguns ousam dizer que já andei de mais, quase me convencem a descansar. Mas não o faço, pois em um minuto o mundo muda e quero notá-lo.
E quando meus sapatos machucam meus pés, me fazendo reclamar e detestar o caminho... os retiro e prossigo, pois ainda há muito a ser visto.
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Qualquer coisa pra atualizar

sábado, 8 de agosto de 2009

Sobre papéis e grafites

Alguém, além de mim, já reparou quão bonito é o beijo que o grafite dá no papel?
Tem mais sentimento ali do que em muitos casais. Em muitas vidas. E beijos.
É um beijo longo e é o único beijo que tatua.
E aquele papel nunca mais será o mesmo. Nem que a borracha o arranhe. As marcas continuarão ali.
O beijo do grafite é tão poderoso que pode fazer de um simples papel a obra mais bela de todos os tempos. Ou pode condená-lo à lixeira.
E o papel o recebe mesmo assim. E agradece não fazendo borrar as marcas.
E nesse mundinho de papéis e grafites, esse é o beijo, de todos os beijos descritos em histórias escritas de papéis tatuados, esse é o beijo mais valorizado.

Toda vez que o grafite beija o papel, tatua. E tatua com o próprio corpo. O próprio sangue. Tatua com uma parte dele. Cada vez que o grafite beija o papel, uma parte dele morre.

Enquanto lembranças se eternizam na folha branca.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Esquecimento

E todos nós carregamos nas profundezas de nossa massa cinzenta um quartinho escuro, pequeno e meio abafado, sem janelas e uma porta cuja chave sempre carregamos. O porão do esquecimento.
E ali depositamos tudo e todos que não nos servem mais e muitas vezes nem percebemos.
É nesse porão que estou nesse momento, no cérebro de algumas tantas pessoas. É meio triste quando notamos que fomos jogados ali, mas não completamente, pois muitas dessas pessoas eu também já esqueci.
Mas o que mais machuca é saber que pessoas que estão na sala "memórias" tenham me jogado nesse quartinho, ou ainda, pessoas que para mim estão na sala central, onde tudo de novo e de recente, onde o hoje é o único dia da semana, pessoas que eu ainda mantenho ali, tenham, talvez sem perceber, me esquecido.

De qualquer maneira não adianta berrar, ou chamar por atenção, o porão que estou é a prova de som, como todos os outros. Somos jogados aqui por uma razão: sermos esquecidos. E a partir desse momento o melhor a fazer é

esquecer?

terça-feira, 21 de julho de 2009

Problemas com o tempo

Eu já liguei pra confirmar, mas é sempre a mesma tediosa resposta:


O tempo está em falta. Obrigada.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Tecendo

A agulha e a linha tecendo palavras corriqueiras, que correm, que fogem, que dizem besteiras. Tecendo, prendendo, dores e amores e gestos e cores no formato perfeito da combinação imperfeita.
A agulha e a linha prendendo dizeres, histórias, fatos e discórdias. Todos cordialmente servindo ao vestido da moçoila infeliz que ficará o oposto ao acordar e ver. Linhas e palavras e cores e amores e dores e gestos.

Com ou sem chá gelado lá pelas 3h.

Tudo rosa, tudo brilha, tudo chora. E até a doce melodia que escapa da vitrola empoeirada é atada à barra da saia da guria.

terça-feira, 12 de maio de 2009

E tanto faz...

Relógios nunca irão esperar por você. E tanto faz. Você nunca irá se importar com relógios. Nem eles. Ou nós.
Depois que o tempo passa, nada volta. E algo muda. Quando muda...

E se não muda, nada altera. Obviamente. Mas quando muda...

Machuca. Mas relógios não se importam. Nem eles. Ou nós.

Ignorando estranhas sensações, enquanto voltas são dadas e tempo passa. E tanto faz.

E se muda e não machuca, permanece. Se permanece é igual. Igual não muda. Mas quem se importa?
Relógios não. Ou eles. Nem nós.

Desde que machuque e não doa. Desde que doa, mas não faça sofrer. Desde o sofrimento seja bom. Desde que o bom faça bem. E o bem faça sorrir. E tanto faz...
Quem se importa?

Eu não. Nem eles, nem nós.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Senhor das Histórias

"Sentem-se todos."
"Hoje nossa história será diferente."
As risadas se misturavam com os passos apressados na madeira nobre, enquanto todas as crianças se sentavam no chão o mais perto do Senhor das Histórias.
"Não teremos 'era um vez', pois essa história não tem fim. Não é algo que já se foi contado. Por isso vocês nunca a ouviram."
A biblioteca sempre ficava mais colorida quando o Senhor das Histórias a visitava. Vinham mais crianças. Viam-se mais sorrisos.
"Também não foi algo que inventei. É uma história sobre pessoas de sentimento. Elas surgiram há muito tempo atrás e deixaram seu legado atravessar as épocas. Essas pessoas sorriam e choravam e brigavam e se amavam todos os dias. Elas sentiam tudo, todos os dias."
Não importava a história. Ou a aparência do velho. Ou qualquer outra coisa. Se algo fosse contado, todos ouviriam.
"Todos os dias eram os piores, assim como todos os dias eram os melhores de suas vidas. Essas pessoas não viviam muito tempo. Mas viviam muito. E morriam de formas variadas. O nascimento e a morte eram celebrados na mesma intensidade. E nunca planejados."
"Essas pessoas não pertenciam, nem tinham nada material. Elas só tinham a si mesmas. Sendo assim precisavam de seus sentimentos. Sentimentos que devem ser compartilhados. E são."
"Mas essas pessoas possuíam a genialidade de compartilhar sem prender ou obrigar qualquer coisa ou alguém. Compartilhavam por acharem a sensação boa e nada mais. A sensação de ganhar uma bala do seu sabor preferido quando menos se espera. E aprecia-la."
"Como já disse, essa história não tem fim. Essas pessoas ainda existem espalhando sentimentos por ai. Elas são responsáveis pelo pouco de cor que se sente no mundo. Cores que se sente."
Cada história ali contada ficava gravada, nas pequenas memórias que se formavam nessas crianças, nas grandes paredes de cor indefinida, nas capas velhas ou novas dos livros fechados, nas bordas das páginas abertas. Cada história viveria ali e seria multiplicada cada vez que alguém as contasse novamente.
"As pessoas de sentimento podem ser facilmente encontradas, basta saber chama-las."
É contando e repassando que histórias ganham vida.
"Como podemos chamá-las?"


Com sentimento.
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só para atualizar(?)

quinta-feira, 26 de março de 2009

Ela, eu e as palavras

Certas palavras precisam ser ditas e ouvidas ao mesmo tempo. E por mais que tais palavras te façam querer falar, você só deve ouvir e engolir.
A degustação de palavras nunca foi lá muito apreciada.

Ela dizia tudo, menos o correto. Eu escutava tudo, fingindo achar certo. Podiam não ser mentiras, mas não eram verdades.

Assim como a degustação de palavras, dize-las pode causar náuseas e mal-estar.

Ela chorava. Eu sentia o nó na minha garganta.

Algumas palavras são facilmente afogadas pelas emoções. Essas se perdem e nem com muito esforço por parte do ouvinte podem ser interpretadas. São palavras que não deveriam ser ouvidas.

Ela afogava várias palavras. Eu discordava com as de mais.

Palavras têm um dom não tão mágico de nos ferir. A pessoa que as diz pode não perceber a força com que as joga em nossa direção. Essas machucam não só nossos tímpanos.

Ela lançava flechas afiadas em minha direção. Eu fingia vestir um escudo de indiferença.

Quando palavras para se dizer e ouvir são finalmente ditas, essas se atropelam e se esmagam e se sufocam. E raramente esperam uma resposta. São respostas que esperam por perguntas.

Ela não tinha culpa, mas se culpava, mas culpava os outros, mas culpava. Eu sentia.

Palavras são como bombas vindas de um país inimigo. Você nunca saberá quando serão jogadas contra você e sentirá um profundo ódio momentâneo contra quem as jogou. Momentâneo por que a tristeza que vem depois é gorda e sufocante.

Ela repetia tudo novamente. Eu saí.

Eu não podia obrigá-la a me ouvir, talvez eu nem tivesse nada para dizer. Não podia pará-la, aquela era (só) sua vez e eu sabia que não poderia dividi-la.

Eu fingi não me importar. Suportar. Até arrebentar o nó da garganta e fazer vazar sentimentos por meus olhos.


Certas palavras precisam ser substituídas, por isso temos lágrimas.

domingo, 8 de março de 2009

Sinônimos

A: -E ela?
E: -Hm... não faz meu tipo.
A: -Tipo?
E: -É, sabe, meu tipo.
A: -Que coisa idiota.
E: -Como assim? Todos temos nossas preferências.
A: -Sim, mas estamos falando de tipos, não de preferências.
E: -Qual a diferença?
A: -Preferência é o que descreve nossos gostos.
E: -E tipo é o que?
A: -Seu tipo faz parte de você.
E: -Meus gostos não fazem parte de mim?
A: -Não. Seus gostos são externos a você.
E: -Você bebeu de mais.
A: -É, talvez.
Eles ficam em silêncio por um momento. Um momento longo o suficiente. Observam o bar em sua volta, o copo de cerveja, a espuma, as pessoas, as saias e até os rostos.
E: -Não faz sentido.
A: -O que?
E: -Tipo e preferência são sinônimos.
A: -Bonito e lindo também.
E: -Sim! - era obvio para ele.
A: -Mas muda a intensidade. Lindo é mais do que bonito. Tipo é mais do que preferência.
E: -Não parece justo. Não parece certo também.
A: -Talvez não seja. – ela gostava de vê-lo pensar.
Ele vê algo. Poderia dizer alguém, mas o que viu no alguém foi algo.
Ela percebeu.
A: -Vai lá.
E: -Quê? - ele foi pego de surpresa - Não!
A: -Por que não? - ela realmente se pergunta isso.
Ele pensa por um momento, então sorri para ela "você tem razão" e se levanta "tipos são mais do que preferências" e sai.
Ela sorri. Não foi uma vitória, só uma conclusão. Não é nenhuma grande teoria também, mas eles não tinham mais assunto. Não queria falar sobre saias.
Ele parece animado, ele abraça alguém, se dirige à porta e sorri para ela. Ele agradeceu.
Ela continuou sorrindo depois que ele saiu. E saiu também.

Sempre preferiu andar sozinha em noites tipo essa.
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Não é para fazer sentido

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Céu de cinza leve

Última colher. Botão vermelho. E o vapor da cafeteira não demorou para sair.
Enquanto isso o céu fica cinza. Fechando a cara de uma maneira simpática.
O cinza claro variava em tons, mas nunca deixava de ser claro.
Ela saiu.
O vento fazia dançar as folhas. E a atmosfera proporcionava a sensação de leveza.
Ela sorriu.
Sentiu a primeira gota tocar seu rosto. Sentiu o cheiro do pó de café em sua mão ao secá-la.
E então ela entrou em casa.
Lamentava ter que fechar as janelas. Lamentava ter que prender o pouquinho de liberdade do lado de fora.

Acabou o café. E o vento ainda chamava por ela.

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Ignorem o título

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Não que tenha importância

Ela balançava os pés, daquele jeito distraído que não percebemos que estamos fazendo. Os pés livres que empurravam o ar num intervalo de tempo quase perfeito. Nada a prendia. Os botões da gola do vestido estavam abertos. Os cabelos soltos, não batiam no seu rosto, nem tampavam sua visão. Nenhum músculo de sua face segurava um sorriso que não queria estar ali. Nada a impedia.
Nenhum pensamento torto ocupava suas idéias. Nenhuma idéia ocupava seus pensamentos. Isso é o que chamam de paz interior? Não, isso é mais. É a medida certa de paz em cada poro, em cada ponto, em cada detalhe. Até a paisagem ao seu redor não estava presa a nenhum tipo de rotina.
Os grãos de areia voavam e dançavam com sua própria música. E o vento beijava tudo e todos sem compromisso. O sol aquecia na temperatura que julgava certa. As nuvens se posicionavam na sua desordem preferida.
Se ela não estivesse sentada à beira de um penhasco, diria que se tornaria uma imagem tediosa.
Mas lá estava ela. Ainda balançando os pés. Ainda séria. Ainda sem pensamentos ou idéias.
E só ali, naquele lugar, daquele jeito, ela era ela e nada mais importava.

Como se nada nunca tivesse realmente importado.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Trilha

Nessa xícara só tem leite. Então por que perguntar se quero café? Se sei que não adicionarão café. Alguém já reparou?

Nesse lugar só vendem bebidas. Então pra que parar? Se tens fome. Você já parou.

Tantas mesas vagas, por que sentar justo no balcão? Para que os outros sintam seu cheiro, ouçam sua voz, percebam seu calor. Ninguém aqui irá te amar. Nem um minuto, nem a vida toda, nem aquele garçom novo cheio de espinhas, ou aquele homem bonito. Talvez a garçonete. Ela te ofereceu uma torta.
Para mim, ela só tinha bebidas.

Não que eu me importe. Dentre todos, escolheria o pianista cego. Talvez ele não me amasse, mas pelo menos fingiria que sim.

E fingiria com trilha sonora.