quinta-feira, 26 de março de 2009

Ela, eu e as palavras

Certas palavras precisam ser ditas e ouvidas ao mesmo tempo. E por mais que tais palavras te façam querer falar, você só deve ouvir e engolir.
A degustação de palavras nunca foi lá muito apreciada.

Ela dizia tudo, menos o correto. Eu escutava tudo, fingindo achar certo. Podiam não ser mentiras, mas não eram verdades.

Assim como a degustação de palavras, dize-las pode causar náuseas e mal-estar.

Ela chorava. Eu sentia o nó na minha garganta.

Algumas palavras são facilmente afogadas pelas emoções. Essas se perdem e nem com muito esforço por parte do ouvinte podem ser interpretadas. São palavras que não deveriam ser ouvidas.

Ela afogava várias palavras. Eu discordava com as de mais.

Palavras têm um dom não tão mágico de nos ferir. A pessoa que as diz pode não perceber a força com que as joga em nossa direção. Essas machucam não só nossos tímpanos.

Ela lançava flechas afiadas em minha direção. Eu fingia vestir um escudo de indiferença.

Quando palavras para se dizer e ouvir são finalmente ditas, essas se atropelam e se esmagam e se sufocam. E raramente esperam uma resposta. São respostas que esperam por perguntas.

Ela não tinha culpa, mas se culpava, mas culpava os outros, mas culpava. Eu sentia.

Palavras são como bombas vindas de um país inimigo. Você nunca saberá quando serão jogadas contra você e sentirá um profundo ódio momentâneo contra quem as jogou. Momentâneo por que a tristeza que vem depois é gorda e sufocante.

Ela repetia tudo novamente. Eu saí.

Eu não podia obrigá-la a me ouvir, talvez eu nem tivesse nada para dizer. Não podia pará-la, aquela era (só) sua vez e eu sabia que não poderia dividi-la.

Eu fingi não me importar. Suportar. Até arrebentar o nó da garganta e fazer vazar sentimentos por meus olhos.


Certas palavras precisam ser substituídas, por isso temos lágrimas.

domingo, 8 de março de 2009

Sinônimos

A: -E ela?
E: -Hm... não faz meu tipo.
A: -Tipo?
E: -É, sabe, meu tipo.
A: -Que coisa idiota.
E: -Como assim? Todos temos nossas preferências.
A: -Sim, mas estamos falando de tipos, não de preferências.
E: -Qual a diferença?
A: -Preferência é o que descreve nossos gostos.
E: -E tipo é o que?
A: -Seu tipo faz parte de você.
E: -Meus gostos não fazem parte de mim?
A: -Não. Seus gostos são externos a você.
E: -Você bebeu de mais.
A: -É, talvez.
Eles ficam em silêncio por um momento. Um momento longo o suficiente. Observam o bar em sua volta, o copo de cerveja, a espuma, as pessoas, as saias e até os rostos.
E: -Não faz sentido.
A: -O que?
E: -Tipo e preferência são sinônimos.
A: -Bonito e lindo também.
E: -Sim! - era obvio para ele.
A: -Mas muda a intensidade. Lindo é mais do que bonito. Tipo é mais do que preferência.
E: -Não parece justo. Não parece certo também.
A: -Talvez não seja. – ela gostava de vê-lo pensar.
Ele vê algo. Poderia dizer alguém, mas o que viu no alguém foi algo.
Ela percebeu.
A: -Vai lá.
E: -Quê? - ele foi pego de surpresa - Não!
A: -Por que não? - ela realmente se pergunta isso.
Ele pensa por um momento, então sorri para ela "você tem razão" e se levanta "tipos são mais do que preferências" e sai.
Ela sorri. Não foi uma vitória, só uma conclusão. Não é nenhuma grande teoria também, mas eles não tinham mais assunto. Não queria falar sobre saias.
Ele parece animado, ele abraça alguém, se dirige à porta e sorri para ela. Ele agradeceu.
Ela continuou sorrindo depois que ele saiu. E saiu também.

Sempre preferiu andar sozinha em noites tipo essa.
---
Não é para fazer sentido