sábado, 8 de agosto de 2009

Sobre papéis e grafites

Alguém, além de mim, já reparou quão bonito é o beijo que o grafite dá no papel?
Tem mais sentimento ali do que em muitos casais. Em muitas vidas. E beijos.
É um beijo longo e é o único beijo que tatua.
E aquele papel nunca mais será o mesmo. Nem que a borracha o arranhe. As marcas continuarão ali.
O beijo do grafite é tão poderoso que pode fazer de um simples papel a obra mais bela de todos os tempos. Ou pode condená-lo à lixeira.
E o papel o recebe mesmo assim. E agradece não fazendo borrar as marcas.
E nesse mundinho de papéis e grafites, esse é o beijo, de todos os beijos descritos em histórias escritas de papéis tatuados, esse é o beijo mais valorizado.

Toda vez que o grafite beija o papel, tatua. E tatua com o próprio corpo. O próprio sangue. Tatua com uma parte dele. Cada vez que o grafite beija o papel, uma parte dele morre.

Enquanto lembranças se eternizam na folha branca.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Esquecimento

E todos nós carregamos nas profundezas de nossa massa cinzenta um quartinho escuro, pequeno e meio abafado, sem janelas e uma porta cuja chave sempre carregamos. O porão do esquecimento.
E ali depositamos tudo e todos que não nos servem mais e muitas vezes nem percebemos.
É nesse porão que estou nesse momento, no cérebro de algumas tantas pessoas. É meio triste quando notamos que fomos jogados ali, mas não completamente, pois muitas dessas pessoas eu também já esqueci.
Mas o que mais machuca é saber que pessoas que estão na sala "memórias" tenham me jogado nesse quartinho, ou ainda, pessoas que para mim estão na sala central, onde tudo de novo e de recente, onde o hoje é o único dia da semana, pessoas que eu ainda mantenho ali, tenham, talvez sem perceber, me esquecido.

De qualquer maneira não adianta berrar, ou chamar por atenção, o porão que estou é a prova de som, como todos os outros. Somos jogados aqui por uma razão: sermos esquecidos. E a partir desse momento o melhor a fazer é

esquecer?